Nunca participei de uma guerra, não tenho preparo físico, nem
recebi algum treinamento militar para isso. Desconheço como funciona
uma arma, não pratiquei técnicas de defesa pessoal. O pouco que sei
sobre como reagir a spray de pimenta, ouvi de meus colegas e li em
redes sociais. Mesmo assim, estava sem meu lencinho com vinagre, como
tanto orientaram. E o que dizer das bombas de efeito moral, balas de
borracha, cães, tumulto, correria, pânico?
As lembranças desse dia tão triste me perseguiram a noite inteira.
Não sei se algum dia me deixarão. Que humilhações um professor
tem que passar para tentar preservar os seus direitos? Ouvi na TV que
os militares só agiram assim porque os professores começaram. Que
houve confronto! Meu Deus! Quando um dos lados está desarmado não
há confronto, há massacre!!! O aparato utilizado para conter a
manifestação pública foi cruel, covarde. As bombas vinham de todos
os lados. Se vocês observarem os vídeos aéreos, elas estavam nos
cercando, metros e metros de distância.
Penso nas senhorinhas, professoras que estão quase encerrando suas
carreiras. Havia muitas lá, afinal, nunca vi uma concentração tão
grande de professores. Como elas estão? Como passaram por tudo isso?
Feriram-se, conseguiram escapar? Será que alguém caiu e foi
pisoteado? E os demais colegas? Ao sairmos de lá, corremos atrás de
informações para sabermos se estavam todos bem. Não tive resposta
sobre todos ainda. Eu tive uma proteção Divina, não que eu me
considere melhor, ou mais merecedora, do que qualquer um que estava
lá. Mas não sei explicar, eu que sou tão travada, consegui reagir
em questão de segundos e parece que optava pelas melhores escolhas,
pelos melhores caminhos. Algo aconteceu e agradeço muito a Deus por
isso.



