terça-feira, 24 de julho de 2018

Massacre aos professores e funcionários públicos no triste 29/04/2015


Nunca participei de uma guerra, não tenho preparo físico, nem recebi algum treinamento militar para isso. Desconheço como funciona uma arma, não pratiquei técnicas de defesa pessoal. O pouco que sei sobre como reagir a spray de pimenta, ouvi de meus colegas e li em redes sociais. Mesmo assim, estava sem meu lencinho com vinagre, como tanto orientaram. E o que dizer das bombas de efeito moral, balas de borracha, cães, tumulto, correria, pânico?

As lembranças desse dia tão triste me perseguiram a noite inteira. Não sei se algum dia me deixarão. Que humilhações um professor tem que passar para tentar preservar os seus direitos? Ouvi na TV que os militares só agiram assim porque os professores começaram. Que houve confronto! Meu Deus! Quando um dos lados está desarmado não há confronto, há massacre!!! O aparato utilizado para conter a manifestação pública foi cruel, covarde. As bombas vinham de todos os lados. Se vocês observarem os vídeos aéreos, elas estavam nos cercando, metros e metros de distância.

Penso nas senhorinhas, professoras que estão quase encerrando suas carreiras. Havia muitas lá, afinal, nunca vi uma concentração tão grande de professores. Como elas estão? Como passaram por tudo isso? Feriram-se, conseguiram escapar? Será que alguém caiu e foi pisoteado? E os demais colegas? Ao sairmos de lá, corremos atrás de informações para sabermos se estavam todos bem. Não tive resposta sobre todos ainda. Eu tive uma proteção Divina, não que eu me considere melhor, ou mais merecedora, do que qualquer um que estava lá. Mas não sei explicar, eu que sou tão travada, consegui reagir em questão de segundos e parece que optava pelas melhores escolhas, pelos melhores caminhos. Algo aconteceu e agradeço muito a Deus por isso.

Raquel Stolf Rodrigues 04/2015

Sobre a agressividade gratuita

    Viajar é maravilhoso, a meu ver, não há coisa melhor na vida! Conhecer lugares e pessoas diferentes, ampliar a mente e o horizonte em relação a outras formas de viver e interpretar o mundo, sair da minha realidade cotidiana e de mim mesma.
    Mas notei algo diferente desta vez. Tenho falado constantemente sobre intolerância, falta de empatia e discurso do ódio. Minhas reclamações sobre sala de aula são constantes. Não é de hoje que acredito que a... humanidade está passando por um declínio espiritual e moral. Mas nesta semana fora de casa presenciei vários episódios estranhos de comportamento.
   Estávamos na panificadora do supermercado e quando chegou a minha vez de ser atendida, uma mulher entrou na minha frente e foi extremamente agressiva com o atendente do balcão. Reclamou do cheiro de cloro no chão. Ele explicou que a moça da limpeza estava passando um pano no chão. Mas ela continuava com as grosserias, afirmando que deveriam usar um produto que “não fosse tão agressivo” (que ironia a expressão usada por ela, já que não percebia o quanto estava sendo “agressiva” com o funcionário que nada tinha a ver com a situação da limpeza do chão). O pior é que outra mulher entrou na discussão, dando razão para a cliente raivosa...
    Em um restaurante, em outra cidade, algo muito parecido aconteceu. A briga agora foi por causa da carne que tinha acabado no buffet. Um homem fez um escândalo ao garçom encarregado pelas bebidas. O atendente explicou que eles iriam repor. Mais uma vez, outra mulher entrou no rolo, colocando mais lenha na fogueira. Eu saí da fila do buffet, morrendo de vergonha alheia, decidindo voltar quando a carne chegasse...
    À noite, em uma hamburgueria de outra região, fizemos nosso pedido e a atendente, com um cuidado extremo, perguntou se estávamos com muita pressa, explicou que estava sozinha e que iria demorar um pouco para preparar os dois pratos. Ela foi tão receosa e gentil ao explicar, que este fato me causou espanto. Falei que não teria problema, que esperaríamos. Mas fiquei pensando sobre quantas vezes ela deve ter sofrido grosserias para estar tão calejada. Ao irmos embora ela perguntou se somos do Sul e conversamos bastante.
    Há algo muito esquisito acontecendo com o comportamento humano, não sei se é só aqui no Brasil. Acredito que não, pensando nas loucuras que acontecem no governo Trump, nos EUA e no fechamento de países europeus em relação aos refugiados. Mas aqui no Brasil, percebo que se juntou intolerância à ignorância. Nos fatos citados acima, vi que as pessoas estão muito revoltadas, mas estão descontando essa indignação em alvos que não são os respectivos responsáveis, o que no mínimo é incoerente.

Raquel Stolf Rodrigues 20/07/2018

Família


Sobre o incômodo causado pelas discussões de gênero em sala de aula

            Como não canso de dizer, de uns anos para cá está muito difícil dar aulas de sociologia. Escrever a palavra gênero no quadro tem causado revolta e resistência em alguns alunos. Eu não entendia muito por que. Fui percebendo que existem muitos discursos contra essa discussão partindo de várias instituições sociais como família e igrejas. Sempre tenho que esclarecer que o conteúdo de gênero da sociologia (que está amparado pelas Diretrizes Curriculares do Ensino Médio), aborda o papel do homem e da mulher na sociedade.
             Existe uma grande diferença entre "teoria de gênero" e "ideologia de gênero". As mulheres devem ser respeitadas e terem os mesmos direitos que os homens. Não é uma discussão sobre questões sexuais e biológicas. Por que uma mulher, mesmo tendo cursos e certificados na área de logística, por exemplo, ainda hoje sofre preconceito para ser aceita e valorizada no mercado de trabalho. A teoria de gênero também aborda questões como violência contra a mulher, que acredito ser importante inclusive aos homens.
             Tenho lido coisas absurdas nas redes sociais, fato muito comum ultimamente. Porque a internet tem velocidade e alcance amplo, o que permite também disseminar o senso comum muito rapidamente. Mas ontem, foi outro fato que me fez perceber porque as discussões de gênero são tão perigosas. O Gilmar participou de uma reunião com os pais de crianças da catequese (era para eu estar junto, mas este ano estou trabalhando praticamente todos os sábados, por estar em duas escolas cujos calendários não batem). Nesta reunião tinha apenas 8 mães presentes. Sim, a reunião era para os pais, para aproximar as famílias da vida dos filhos. Mas por que só havia mulheres? Inclusive o Gilmar me contou que um pai ficou no carro, não quis descer e acompanhar a esposa na reunião. Outra mãe, além de levar um filho para a catequese, teve que levar o outro também na reunião.
              Por isso incomoda tanto. Muitos homens não querem sair dessa zona de conforto. Está muito bom assim. Por que vão querer assumir tarefas que antes não eram deles? O que não entendo ainda é porque algumas mulheres também não aceitam essas discussões. Não estou generalizando. Não estou falando que todos e todas são assim. Participo de um movimento de casais da igreja católica. Neste encontro, os homens são atuantes e participam das atividades em família. Imagino que eles compreenderiam perfeitamente o conteúdo de gênero debatido em sala de aula.
              Esse meu texto é mais um desabafo, mas também um alerta para os pais e responsáveis. Procurem informações e esclarecimentos antes de aceitar prontamente os discursos divulgados em mídias e redes sociais. Alerto para que não haja uma deturpação do que realmente é discutido em sala de aula. Reflitam, para realmente tomarem um posicionamento consciente.

Raquel Stolf Rodrigues 01/07/2018

O dia que quase desisti de ser professora

           Não quero mais, não consigo mais ser professora. Sinto que adoeço a cada dia. Meu jeito tímido, reservado e com pouco senso de humor nunca facilitaram que meus alunos gostassem de mim de imediato. Mas com algum tempo, conseguia cativar alguns. Podendo acompanhá-los desde o primeiro ano do Ensino Médio, sentia-me útil na vida deles. Eu havia encontrado meu lugar no mundo. Isso há 14 anos atrás. Conseguia sentir as dores deles, angústias, imaginar seus sonhos, plantar sementes de esperança.
            De alguns anos para cá, muita coisa mudou. O massacre do dia 29 de abril de 2015 é a metáfora perfeita do que é ser professor hoje. Nossos governantes nos tratam com bombas, balas e helicópteros. A sociedade civil se divide entre o sentimento de pena e o ódio contra a categoria. Os poucos que ainda nos valorizam nos olham com piedade (ouvi muitas vezes quando escolhi o curso de Ciências Sociais: “O que vai fazer com isso? Dar aulas?”). Os demais nos vêem como preguiçosos, incompetentes e vagabundos. Muitos terceirizam a educação de seus filhos, depositam toda a responsabilidade nas nossas costas e, ainda assim, nos julgam inúteis e fardos na sociedade.
            E quanto a ser professora de sociologia hoje então? Eu gostaria de pelo menos ter competências na área de exatas. Um professor de matemática, por exemplo, apesar de passar pelas situações que comentei acima, não carrega o peso diário, rótulos, estigmas e estereótipos que carrego na minha área. A maioria das pessoas que não teve aulas de sociologia na escola ou na faculdade não faz ideia do que é a disciplina.
            No início da minha carreira, eu tinha que explicar que sociologia é diferente serviço social. Hoje, os alunos já chegam com informações distorcidas que são disseminadas pelas redes sociais. Acham que já sabem tudo sobre o que essa “terrível disciplina doutrinadora pode fazer com suas mentes”. Falar sobre democracia nos dias de hoje é perigoso. Mostrar que as mulheres deveriam ter os mesmos direitos que os homens ou abordar o tema da violência contra a mulher é visto como ameaça aos “bons costumes”. Mas, pior que isso, mesmo quando o conteúdo não tem nada de polêmico, como foi o caso da Administração Científica do Trabalho (Taylorismo, Fordismo e Toyotismo) abordada na aula de hoje, tenho que passar a explicação inteira ouvindo risadinhas, deboche e falta de respeito. E é assim diariamente, não importa o conteúdo. Sou chamada de comunista sem nunca ter abordado o conceito de socialismo ou comunismo em sala de aula. Sou chamada de feminista com a interpretação mais equivocada que eles possam ter sobre o assunto.
              E agora, o que faço com quase 14 anos de concurso público, anos de estudo na UFPR, pós graduação? É triste perceber que joguei tanto tempo da minha vida fora. Hoje eu queria ter uma profissão que, de preferência, não precisasse conversar nem olhar para a cara de ninguém. Algo que eu não precisasse pensar e pudesse ficar isolada em um canto só meu. Olho para minha filha e penso: e agora?

Raquel Stolf Rodrigues 14/06/2018

Maniqueísmo

Maniqueísmo

   Vítimas ou vilões? Bem ou mal? Certo ou errado? É tudo tão simples assim? Podemos ter uma visão maniqueísta sobre todos os fatos, todas as pessoas? Julgamos todas as situações, encaixotamos os indivíduos, rotulamos, limitamos. Reduzimos todo um complexo que envolve a identidade a meras definições simplistas.

   Será que somos bons o tempo todo, ou também cometemos erros? E, ao errarmos, isso faz de nós pessoas más? A cada discussão do momento, cisões acontecem, amizades se rompem, famílias se fragmentam. Não conseguimos mais conviver com o diferente, não aceitamos opiniões. Aliás, nem deixamos as outras pessoas falarem, argumentarem. Criamos um bloqueio, uma parede impenetrável que não nos permite enxergar o outro em sua totalidade.
 
   Em uma discussão fervorosa e polêmica lembramos que quem está à nossa frente (ou do outro lado da tela do celular ou computador) é um ser complexo em sua totalidade, com sentimentos, crenças, opiniões, cultura, educação e valores que nem sempre compactuam com os nossos? E cada uma dessas divergências é motivo para rompermos relações? Se fizermos isso em cada uma dessas áreas, sobrará alguém do nosso lado?

     Encontraremos alguma pessoa que seja igual a nós em todos os aspectos? Isso é possível, se cada indivíduo é único? E teria sentido? Qual seria a graça se fôssemos todos iguais?
Raquel Stolf Rodrigues, 29/05/2018.