quarta-feira, 6 de maio de 2020

Aniversário em meio ao isolamento social

Aniversário em meio ao isolamento social

Sempre carreguei comigo uma tristeza, um vazio, uma melancolia. Desde que me conheço por gente, como se diz... Depositava em outras pessoas, ou motivos externos, as causas de minha felicidade. Mas nunca era o suficiente, o apego me aprisionava ao sofrimento. Algumas vezes pude afirmar que me senti realmente plena: no início de minha carreira como professora, as conquistas na vida a dois, minha gravidez e os primeiros anos de vida de minha filha. Mas, mesmo esses momentos, às vezes desmoronavam.
Ser professora hoje não é fácil e muitas situações aconteceram desde o massacre no Centro Cívico em 29 de abril de 2015. Mas isso já foi motivo de outros textos meus. Um casamento de quase 14 anos também tem seus altos e baixos, além de uma grande crise que tivemos uns anos atrás e culminou em separação, da qual ainda estamos passando por um processo de reconstrução. Minha gravidez e, os primeiros anos de vida da minha filha, certamente marcaram uma época que eu gostaria de poder congelar no tempo e reviver cada vez que precisasse beber algumas gotas de esperança e força. Mas acabei aprendendo a duras penas que a impermanência é uma realidade incontestável. Apesar de minha filha ser o maior amor de minha vida, hoje ela já é um pouco mais independente e minhas obrigações diárias também não permitem eu me restringir a este fragmento de realidade.
Há um ano e meio perdi minha mãe, ano passado meu pai teve uma crise de ansiedade e ficamos uns meses na casa dele. Enfim, passei por muitas transformações nesses últimos 5 anos. Já entrei para os “enta” em 2019, então a idade não é um choque tão grande esse ano. Mas é o primeiro aniversário em meio a uma pandemia e estou levando à risca o isolamento social. Sinto falta dos amigos, dos almoços em família nos domingos, das reuniões e formações no Encontro Matrimonial, da escola, de passear, viajar, tomar um café ou um chopp, ir ao cinema. Algumas dessas coisas nem imagino quando poderei fazer novamente. As previsões ainda não são muito boas, nem sabemos o que vai ser o “novo normal”. Mas espero que a humanidade, de um modo geral, tire alguma aprendizagem do que estamos passando. Que profissões e prioridades sejam revistas e valorizadas, que saiamos mais fortalecidos e evoluídos. 


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Como tenho vivido a impermanência


      Estou tentando lidar com a impermanência  e encará-la de maneira positiva. Às vezes queremos congelar momentos, sentimentos, sensações. Guardar em uma caixinha, para poder viver sempre da mesma maneira. Mas tudo passa, os sentimentos bons e os ruins. A impermanência é um fato e não dá para negar, fugir, criar ilusões.
      Minha filha de 7 anos é tão evoluída nesse aspecto. Parece que já nasceu assim. É tão desapegada, sofre menos com as mudanças. É incrível como ela ama as pessoas (plantas e animais), a forma que se entrega às situações, guarda o que vive com carinho, sente saudades. Mesmo assim, irradia alegria, compreende o que eu estou levando décadas para aprender. 
      Eu sempre sofri muito com as perdas, a transitoriedade e a falta de estabilidade. Mas não conseguia compreender que nada é tão sólido. E que isso não é necessariamente ruim. Da mesma forma que os nossos objetos de desejo (e o que nos traz prazer) mudam, ou diminuem a intensidade, o sofrimento também passa.
     Como afirmou Chagdud Tulku Rinpoche, "saber disso não só ajuda a diminuir o apego, como também nos proporciona maior apreciação das coisas que temos, enquanto a temos. Impelidos pelo desejo, deixamos de apreciar e valorizar aquilo que já temos. Precisamos nos dar conta de que o tempo que temos com aqueles que nos são caros - nossos amigos, parentes, colegas de trabalho - é muito curto. Mesmo que vivêssemos 150 anos, isso seria muito pouco tempo para desfrutar e fazer uso da nossa oportunidade humana".

sábado, 4 de janeiro de 2020

Morte da escrita?





Morte da escrita?

                                                                           por Raquel Stolf Rodrigues



2020, para muitos, o esperado ano da mudança. A humanidade adoecida de depressão, ansiedade e solidão, sofre dos sintomas que Georg Simmel já nos alertava quando se referia às dificuldades e paradoxos da metrópole acelerada. Talvez seja o momento de reduzirmos o ritmo das nossas atividades cotidianas, substituirmos o tempo gasto com superficialidades por atitudes que enriqueçam a alma.

Quem sabe uma possível saída seja resgatarmos a escrita e a literatura, que permitem um autoconhecimento, refletir sobre os sentimentos, usar a criatividade, mesclar nossa realidade com ficção, entre tantos outros benefícios. Renato Ostrowski, em seu terceiro livro intitulado Revolta das Canetas, talentosamente expõe de maneira engraçada e desmedida, através de crônicas, as observações e impressões dos conflitos existenciais, que só os olhos e sensibilidade de um bom escritor podem experimentar.

A crônica que cede o nome ao livro fala sobre a morte da escrita, que ironicamente culminou em uma noite de autógrafos onde todas as canetas desapareceram. Fatos corriqueiros ou leves, como o duelo com uma barata, um equivocado entregador insistente, o desejo frustrado de um cruzeiro no Caribe, um xingamento no trânsito, o travamento de uma porta giratória no banco, ganham uma roupagem encantadora propiciando ao leitor boas gargalhadas.

Temas mais sérios como o tempo, adolescência, morte, conflitos familiares e medo também aparecem através da conhecida “opaca transparência” instrumento utilizado por Renato Ostrowski tanto na poesia como na prosa.

Que tal como meta para 2020 inserir mais leitura aos nossos dias? Indico, com carinho, começar o propósito com esta agradável obra lançada em 14 de dezembro de 2019, pela editora Kafka.





domingo, 15 de setembro de 2019

Sobre Deus e a maldade humana


O questionamento de um amigo meu sobre a existência de Deus e a explicação para cachorros abandonados me fez pensar sobre um grande dilema com infinitas respostas. Gostaria de guardar minha humilde reflexão, para voltar a ela futuramente:

Essa discussão vem desde o início da humanidade e quem sou eu para comentar alguma coisa. Mas como eu te falei um dia, concordo  com Espinosa quando ele diz que temos uma interpretação antropomórfica de Deus, atribuímos a Ele características que na verdade são nossas. Não conseguimos compreendê-Lo em sua essência porque Ele possui características que são inimagináveis para nós. 
De qualquer forma, acredito no livre arbítrio e que tudo o que fazemos gera consequências. Caso contrário, seríamos apenas marionetes sem possibilidade de escolhas. Mas imagino que seja como um pai ou uma mãe que fez tudo o que podia para criar um filho da maneira mais ética possível e, mesmo assim, o filho optou por caminhos tão diferentes do que ele (a) tentou ensinar. O problema é o próprio ser humano que é um paradoxo inexplicável. Como podemos ter tanto acesso a informações e tecnologia e mesmo assim parece que regredimos racionalmente? Já dizia Rousseau, a desigualdade natural ou física não é a mais complicada. O ruim é a moral ou política que foi uma convenção estabelecida pela própria sociedade e é a mais cruel.
Existem seres humanos horríveis e que são uma vergonha para a humanidade. Mas ainda acredito em pessoas que fazem e fizeram a diferença. O melhor é se juntar a elas... Tente continuar a fazer a sua parte. Ame e ajude os animais que estão ao seu alcance. Quem sabe, um dia, mais pessoas pensem assim e talvez tenhamos um mundo melhor.



Depois de responder ao meu amigo, encontrei esse texto na Internet,  o qual me identifiquei em muitos aspectos, inclusive a mesma opinião que tive em relação à marionetes:



quinta-feira, 30 de maio de 2019

Pedaço de mim que ficou

Sofri muito de uns anos para cá. Acho que tudo começou com o massacre do Beto Richa e o desrespeito com a educação. Depois tive uma grande crise no casamento e ver minha filha sofrer foi mais forte que minha própria dor. Recentemente,  a morte inesperada e brusca de minha mãe. Parece que um pedaço de mim morreu com tudo isso. Sou uma pessoa diferente. Mas o engraçado é que o pedaço que ficou decidiu viver, aproveitar o que a vida tem de bom e não dar tanta importância ao que não vale a pena.  ❤
Raquel Stolf Rodrigues