Aniversário em meio ao
isolamento social
Sempre carreguei comigo uma tristeza, um vazio, uma melancolia. Desde
que me conheço por gente, como se diz... Depositava em outras
pessoas, ou motivos externos, as causas de minha felicidade. Mas
nunca era o suficiente, o apego me aprisionava ao sofrimento. Algumas
vezes pude afirmar que me senti realmente plena: no início de minha
carreira como professora, as conquistas na vida a dois, minha
gravidez e os primeiros anos de vida de minha filha. Mas, mesmo esses
momentos, às vezes desmoronavam.
Ser
professora hoje não é fácil e muitas situações aconteceram desde
o massacre no Centro Cívico em 29 de abril de 2015. Mas isso já foi
motivo de outros textos meus. Um casamento de quase 14 anos também
tem seus altos e baixos, além de uma grande crise que tivemos uns
anos atrás e culminou em separação, da qual ainda estamos passando
por um processo de reconstrução. Minha gravidez e, os primeiros
anos de vida da minha filha, certamente marcaram uma época que eu
gostaria de poder congelar no tempo e reviver cada vez que precisasse
beber algumas gotas de esperança e força. Mas acabei aprendendo a
duras penas que a impermanência é uma realidade incontestável.
Apesar de minha filha ser o maior amor de minha vida, hoje ela já é
um pouco mais independente e minhas obrigações diárias também não
permitem eu me restringir a este fragmento de realidade.
Há
um ano e meio perdi minha mãe, ano passado meu pai teve uma crise de
ansiedade e ficamos uns meses na casa dele. Enfim, passei por muitas
transformações nesses últimos 5 anos. Já entrei para os “enta”
em 2019, então a idade não é um choque tão grande esse ano. Mas é
o primeiro aniversário em meio a uma pandemia e estou levando à
risca o isolamento social. Sinto falta dos amigos, dos almoços em
família nos domingos, das reuniões e formações no Encontro
Matrimonial, da escola, de passear, viajar, tomar um café ou um
chopp, ir ao cinema. Algumas dessas coisas nem imagino quando poderei
fazer novamente. As previsões ainda não são muito boas, nem
sabemos o que vai ser o “novo normal”. Mas espero que a
humanidade, de um modo geral, tire alguma aprendizagem do que estamos
passando. Que profissões e prioridades sejam revistas e valorizadas,
que saiamos mais fortalecidos e evoluídos.



